Grandes eventos esportivos costumam despertar emoções intensas. A torcida, a expectativa pelos resultados e o clima de celebração fazem parte da experiência.
No entanto, nesse mesmo período, aumenta também a exposição às apostas esportivas e isso pode representar um risco para algumas pessoas.
A combinação entre emoção, publicidade constante e facilidade de acesso pelo celular pode favorecer comportamentos compulsivos relacionados às apostas, muitas vezes sem que a pessoa perceba.
Quando a aposta parece estar sob controle
Diferentemente de outros jogos de azar, as apostas esportivas costumam transmitir a sensação de que os resultados podem ser previstos com base em conhecimento, experiência e análise. Quem acompanha futebol, conhece os times, estuda estatísticas e entende o desempenho dos jogadores pode sentir que está tomando decisões totalmente racionais e calculadas.
E, de fato, o conhecimento sobre o esporte pode influenciar algumas escolhas. No entanto, existe um aspecto importante que não pode ser ignorado: o resultado final nunca está completamente sob controle. Lesões inesperadas, decisões da arbitragem, mudanças táticas, condições climáticas e inúmeros outros fatores podem alterar o rumo de uma partida.
Essa sensação de controle pode fazer com que seja mais difícil perceber quando as apostas estão ocupando um espaço maior do que deveriam. Muitas vezes, as perdas são interpretadas apenas como erros de análise que podem ser corrigidos na próxima aposta, o que incentiva novas tentativas e aumenta o envolvimento com a atividade.
Um problema maior do que parece
Os números mostram que esse é um tema que merece atenção.
Segundo dados do Ministério da Saúde, nos últimos cinco anos, houve um crescimento de quase 140% na busca por serviços de saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) por problemas de dependência de jogos on-line.
Além disso, apenas durante a Copa do Mundo deste ano, a expectativa é que sejam movimentados até R$ 31 bilhões em apostas no país.
Outro dado que chama atenção é o crescimento dos pedidos de autoexclusão voluntária
A autoexclusão é uma ferramenta que permite que a própria pessoa solicite o bloqueio do seu acesso às plataformas de apostas por um período determinado, como forma de proteção quando percebe dificuldades para controlar o comportamento.
Desde o lançamento da plataforma nacional de autoexclusão, no início de 2026, mais de 500 mil solicitações foram registradas em apenas cinco meses.
O que a saúde mental tem a ver com isso?
A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno do jogo como uma condição clínica. Ele se caracteriza pela dificuldade de controlar o impulso de apostar, mesmo quando isso começa a causar prejuízos financeiros, conflitos nos relacionamentos e sofrimento emocional.
Isso acontece porque as apostas ativam sistemas de recompensa do cérebro relacionados à sensação de prazer, expectativa e gratificação. Cada ganho, ou mesmo a possibilidade de ganhar, pode gerar uma descarga de emoções que incentiva a repetição do comportamento. Com o tempo, algumas pessoas passam a sentir uma necessidade crescente de continuar apostando, mesmo diante de perdas, frustrações ou consequências negativas.
É importante lembrar que isso não acontece por falta de força de vontade ou por uma simples questão de escolha. Trata-se de uma relação complexa que envolve fatores emocionais, comportamentais e biológicos.
Nem sempre o sofrimento é apenas de quem aposta
Quando falamos sobre os impactos das apostas, é comum que a atenção se volte para quem está apostando. Mas, na prática, o sofrimento muitas vezes alcança toda a rede de apoio ao redor dessa pessoa.
Companheiros, pais, filhos, irmãos e amigos costumam ser os primeiros a perceber mudanças no comportamento: preocupações constantes com dinheiro, segredos, promessas não cumpridas, conflitos frequentes e um distanciamento emocional que pode surgir aos poucos.
Para quem convive com essa realidade, é comum aparecer um sentimento de impotência. Muitas pessoas se veem tentando ajudar, controlar a situação ou minimizar os prejuízos, enquanto carregam sozinhas a ansiedade, o medo e a preocupação com o futuro.
Esse desgaste emocional também merece atenção. Viver sob tensão constante pode afetar o bem-estar, os relacionamentos, o sono e a saúde mental de quem está ao redor. Por isso, é importante reconhecer que familiares e pessoas próximas também podem precisar de acolhimento, orientação e apoio.
Sinais que merecem atenção
Alguns comportamentos podem indicar que a relação com as apostas está se tornando mais difícil de administrar. Observar esses sinais não é motivo para culpa ou julgamento, mas uma oportunidade de olhar para si mesmo com mais cuidado.
Tentativas repetidas de reduzir ou interromper as apostas sem sucesso
Muitas pessoas percebem que estão gastando mais tempo ou dinheiro do que gostariam e tentam parar ou diminuir as apostas. Quando essas tentativas acontecem várias vezes, mas a pessoa acaba retornando ao mesmo padrão, pode ser um sinal de que está enfrentando dificuldades para controlar esse comportamento sozinha.
Apostar novamente para tentar recuperar perdas anteriores
Após perder dinheiro, é comum surgir a esperança de que uma nova aposta possa compensar o prejuízo. O problema é que essa tentativa de “recuperar o que foi perdido” pode levar a apostas cada vez maiores, aumentando o estresse financeiro e emocional.
Mentir ou esconder informações relacionadas às apostas
Quando alguém sente necessidade de omitir quanto gastou, esconder o tempo dedicado aos jogos ou evitar conversar sobre o assunto, isso pode indicar desconforto, vergonha ou medo da reação das pessoas próximas. Muitas vezes, esse comportamento surge quando a atividade já está causando impactos importantes na vida da pessoa.
Conflitos frequentes sobre dinheiro ou sobre o tempo dedicado aos jogos
Discussões recorrentes com familiares, parceiros ou amigos podem acontecer quando as apostas começam a ocupar um espaço maior do que o planejado. Isso pode afetar compromissos, responsabilidades e até mesmo a qualidade dos relacionamentos.
Irritabilidade, ansiedade ou alterações no sono relacionadas ao tema
Preocupações constantes com apostas, perdas financeiras ou a vontade de jogar podem gerar sofrimento emocional. Algumas pessoas percebem que ficam mais ansiosas, irritadas ou com dificuldades para dormir, especialmente quando não conseguem apostar ou quando estão preocupadas com os resultados.
Reconhecer esses sinais não significa fraqueza. Pelo contrário: é um passo importante para cuidar da própria saúde emocional e buscar apoio.
O papel da terapia nesse processo
Quando as apostas começam a gerar sofrimento, conflitos ou a sensação de perda de controle, a terapia pode ser um importante espaço de acolhimento e compreensão. Mais do que focar apenas no comportamento de apostar, o processo terapêutico busca entender o que está por trás dele: emoções, necessidades, dificuldades e experiências que podem estar influenciando essa relação.
Muitas vezes, as apostas acabam funcionando como uma forma de lidar com ansiedade, estresse, frustrações, solidão ou outras questões emocionais. A terapia ajuda a identificar esses fatores, reconhecer padrões de comportamento e desenvolver estratégias mais saudáveis para enfrentar os desafios do dia a dia.
Ao longo desse processo, também é possível trabalhar o manejo dos impulsos, fortalecer a capacidade de tomar decisões conscientes e construir novas formas de encontrar prazer, satisfação e bem-estar sem depender das apostas.
Além disso, quando houve perdas financeiras, conflitos familiares ou impactos na autoestima, a terapia pode auxiliar na reconstrução da confiança em si mesmo, no fortalecimento dos vínculos afetivos e na elaboração dos sentimentos de culpa, vergonha ou frustração que frequentemente acompanham essa experiência.
Cada trajetória é única, mas uma coisa é comum a todas elas: buscar ajuda não significa fracassar. Pelo contrário, é um passo importante de cuidado consigo mesmo e uma oportunidade de construir uma relação mais saudável com as próprias emoções, escolhas e projetos de vida.
Se este conteúdo fez sentido para você ou trouxe à mente alguém próximo, saiba que existe ajuda disponível.
Ninguém precisa enfrentar esse tipo de desafio sozinho. Cuidar da saúde mental também é um ato de coragem e pedir ajuda pode ser o começo de uma mudança importante.