A Copa do Mundo de 2026 já está movimentando torcedores do mundo inteiro. Dentro de campo, as atenções se voltam para gols, disputas e favoritismos. Fora dele, porém, um tema importante ganhou destaque: a decisão de Kylian Mbappé de não associar sua imagem a casas de apostas esportivas.
Recentemente, uma campanha publicitária vinculada a uma empresa de apostas utilizou imagens de jogadores da seleção francesa sem autorização prévia. Entre eles estava Mbappé, que mais uma vez demonstrou seu desconforto com esse tipo de associação.
Mas essa não é uma posição nova. Desde a Copa do Catar, em 2022, o jogador já vinha recusando participar de ações promocionais ligadas ao setor. E os motivos que apresenta vão além de contratos ou direitos de imagem: eles estão relacionados às experiências que testemunhou ao longo da vida.
Ao falar sobre o tema, Mbappé relembrou sua origem em Bondy, na periferia de Paris, e afirmou ter visto de perto o impacto que as apostas tiveram sobre muitas pessoas ao seu redor.
Por que a fala de Mbappé importa além do futebol
Ao longo da carreira, Mbappé tem utilizado sua visibilidade para se posicionar sobre questões sociais importantes, como desigualdade, racismo e violência policial. No caso das apostas esportivas, sua postura chama atenção porque questiona um mercado que está cada vez mais presente no esporte.
Hoje, casas de apostas patrocinam clubes, campeonatos, seleções e transmissões esportivas. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação de profissionais da saúde, pesquisadores e familiares sobre os impactos que esse tipo de prática pode ter, especialmente entre pessoas mais vulneráveis.
Quando uma figura pública tão influente decide falar sobre o assunto, ela ajuda a trazer para o debate algo que muitas vezes permanece invisível: as consequências emocionais, financeiras e sociais que podem surgir quando as apostas deixam de ser apenas entretenimento.
Mais do que proteger sua imagem, Mbappé acaba abrindo espaço para uma conversa necessária sobre saúde mental.
O vício em apostas não é uma questão de caráter
Ainda existe a ideia de que quem perde o controle sobre as apostas simplesmente não teve disciplina suficiente para parar. Essa visão, porém, simplifica uma realidade muito mais complexa.
As plataformas de apostas são desenvolvidas para manter o usuário engajado. Sons, cores, notificações, bônus e recompensas frequentes são recursos que estimulam a permanência e incentivam novas apostas.
Além disso, o cérebro humano responde de forma intensa à expectativa de uma recompensa incerta. A possibilidade de ganhar ativa mecanismos ligados ao prazer e à motivação, fazendo com que muitas pessoas continuem apostando mesmo após sucessivas perdas.
Com o tempo, pode surgir um ciclo difícil de interromper:
- A esperança de recuperar o dinheiro perdido;
- A vontade de repetir uma sensação positiva após uma vitória;
- A crença de que a próxima aposta será diferente;
- O aumento gradual do tempo, da energia e dos recursos dedicados ao jogo.
Quando esse padrão se torna persistente e começa a causar prejuízos significativos, estamos diante de uma condição reconhecida pelos manuais internacionais de saúde mental: o transtorno do jogo.
O sofrimento que quase ninguém vê
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o sofrimento relacionado às apostas nem sempre é visível.
Muitas pessoas continuam trabalhando, estudando e mantendo suas rotinas enquanto enfrentam, em silêncio, dificuldades emocionais e financeiras.
Entre os sinais mais comuns estão:
- Ansiedade constante;
- Insônia;
- Sentimentos de culpa;
- Vergonha;
- Isolamento social;
- Conflitos familiares;
- Endividamento;
- Sensação de desesperança.
Frequentemente, a dor não está apenas na perda financeira, mas na sensação de ter perdido o controle sobre algo que parecia simples no início.
E existe um agravante importante: a vergonha.
Por medo de julgamentos, muitas pessoas escondem o problema por longos períodos. Isso faz com que a busca por ajuda seja adiada justamente quando ela poderia fazer mais diferença.
Por trás de alguém que enfrenta dificuldades com apostas, geralmente existe sofrimento e não falta de caráter.
Quando a vulnerabilidade econômica aumenta os riscos
A fala de Mbappé também chama atenção para um aspecto que merece ser discutido com mais cuidado: o impacto das apostas em contextos de vulnerabilidade social e econômica.
Quando as dificuldades financeiras fazem parte da realidade de uma pessoa, a promessa de uma mudança rápida pode parecer especialmente atraente. A possibilidade de transformar um valor pequeno em um grande ganho muitas vezes se conecta a desejos legítimos de melhorar de vida, resolver problemas ou aliviar preocupações.
Isso não tem relação com falta de inteligência ou informação.
Tem relação com esperança.
O problema é que essa esperança frequentemente encontra um sistema construído para favorecer a própria plataforma. E, quando as perdas acontecem, a tendência pode ser tentar recuperar o dinheiro apostando ainda mais.
Em muitos casos, esse ciclo acaba aprofundando dificuldades que já existiam anteriormente, gerando ainda mais sofrimento emocional e financeiro.
Um mercado em expansão e uma geração de jovens no radar
As apostas esportivas nunca estiveram tão presentes no cotidiano. Elas aparecem em transmissões de jogos, redes sociais, uniformes de clubes e campanhas publicitárias.
Nesse contexto, jovens e adolescentes são constantemente expostos a mensagens que associam apostas a diversão, sucesso e pertencimento.
Quando atletas admirados aparecem vinculados a essas marcas, mesmo sem intenção, pode surgir a impressão de que apostar é algo totalmente inofensivo ou parte natural da experiência esportiva.
É justamente esse tipo de associação que Mbappé tem procurado evitar.
Sua postura nos lembra que figuras públicas exercem influência sobre comportamentos, especialmente entre públicos mais jovens, que ainda estão construindo sua relação com dinheiro, risco e tomada de decisões.
Por que é importante falar sobre isso?
Durante muito tempo, as discussões sobre apostas ficaram concentradas em aspectos econômicos e regulatórios. Embora esses debates sejam importantes, eles não podem ser os únicos.
Também é necessário olhar para as pessoas.
Falar sobre saúde mental nesse contexto não significa condenar quem aposta ocasionalmente. Significa reconhecer que:
- Existem riscos reais envolvidos;
- Algumas pessoas são mais vulneráveis do que outras;
- As plataformas utilizam estratégias para aumentar o engajamento;
- O sofrimento associado ao jogo merece acolhimento, não julgamento.
Quanto mais informação de qualidade circula, maiores são as chances de que pessoas em sofrimento reconheçam os sinais e procurem apoio antes que as consequências se tornem ainda mais graves.
Um olhar mais humano
Talvez a principal reflexão que esse episódio nos oferece seja a importância de olhar para o tema das apostas com mais empatia e menos julgamento.
Quando alguém desenvolve uma relação problemática com o jogo, geralmente há uma história por trás desse comportamento. Existem emoções, dificuldades, vulnerabilidades e contextos que nem sempre são visíveis para quem observa de fora.
Por trás das dívidas, existem pessoas.
Por trás das perdas, existem famílias.
Por trás do silêncio, muitas vezes existe vergonha.
E por trás da vergonha, existe alguém que pode estar precisando de ajuda.
Falar sobre saúde mental é justamente criar espaços onde essas pessoas possam ser acolhidas, compreendidas e orientadas sem medo de julgamentos.
A fala de Mbappé não resolve os desafios envolvidos no crescimento das apostas esportivas. Mas ela contribui para algo muito importante: lembrar que, por trás dos números, dos contratos e das campanhas publicitárias, existem vidas reais sendo impactadas.
E toda conversa que nos ajuda a enxergar isso com mais humanidade merece ser ouvida.
Se você percebe que as apostas têm causado sofrimento, preocupação ou impactos na sua vida
Saiba que você não precisa enfrentar isso sozinho.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas um passo importante de cuidado consigo mesmo. A psicoterapia pode oferecer um espaço seguro para compreender o que está acontecendo, acolher suas dificuldades e construir caminhos mais saudáveis para lidar com elas.
Na Harmonie, contamos com profissionais preparados para acolher você com escuta, respeito e sem julgamentos.
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