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Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio: por que essa conversa não pode ficar só em setembro

Ontem, dia 10 de setembro, marcamos o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. A data existe desde 2003, é organizada pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP) e conta com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), reunindo todos os anos um esforço global de conscientização.

Mas há algo importante que precisa ser dito: essa pauta não pode existir apenas dentro do Setembro Amarelo. O sofrimento que leva alguém a considerar tirar a própria vida não segue calendário, e a escuta, o acolhimento e a informação sobre o tema precisam estar presentes o ano inteiro. Falar sobre isso hoje, e continuar falando depois, é parte do compromisso que temos como profissionais da saúde mental.

 

Alguns dados que ajudam a dimensionar o problema

Estima-se que cerca de 703 mil pessoas morram por suicídio todos os anos no mundo (Organização Mundial da Saúde, 2021), além de milhões de outras pessoas que tentam, planejam ou pensam em suicídio (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, 2021a).

Esses números, por si só, já impressionam. Mas o suicídio não afeta apenas quem morre: estima-se que cada suicídio impacte, em média, 135 pessoas próximas (Ceret et al., 2019). São famílias, amigos, colegas de trabalho e comunidades inteiras que carregam essa dor.

Um dado da Organização Pan-Americana da Saúde reforça esse cenário: apenas na região das Américas, quase 97,3 mil pessoas morreram por suicídio em 2019, e o número de tentativas de suicídio pode ter sido cerca de 20 vezes maior. A mesma organização destaca que a pandemia de covid-19 agravou fatores de risco já existentes, como desemprego, dificuldades financeiras e barreiras de acesso a cuidados de saúde.

 

Homens x mulheres: uma diferença que chama atenção

Em quase todos os países do mundo ocidental, as taxas de suicídio entre homens superam as das mulheres, numa proporção aproximada de 1,7 homens para cada mulher (Aubin et al., 2013; Lengvenyte et al., 2021).

Essa diferença tem sido cada vez mais estudada. Recentemente, foi publicada a mais completa revisão sistemática já feita sobre suicídio entre homens, reunindo duas décadas de pesquisas sobre fatores de risco e caminhos de recuperação (Bennett et al., 2023). Entender essas diferenças ajuda profissionais de saúde mental a pensar em estratégias de prevenção mais direcionadas, considerando, por exemplo, que homens costumam buscar ajuda com menos frequência e enfrentam barreiras específicas relacionadas a como a masculinidade é construída socialmente.

O suicídio é um dos comportamentos humanos mais difíceis de compreender. É justamente por isso que ter uma data, um mês, uma campanha de conscientização, é tão relevante: isso nos dá a chance, como sociedade e como profissionais, de reduzir o estigma por meio de informação de qualidade.

 

O que as teorias psicológicas nos ensinam

Nos últimos anos, diferentes teorias psicológicas têm buscado explicar o comportamento suicida. E um ponto é consenso entre pesquisadores e clínicos: não existe uma única causa. Tentar atribuir o suicídio a um motivo isolado é, além de impreciso, uma simplificação perigosa.

Por isso, toda avaliação clínica e toda ação de prevenção precisam considerar a história e os riscos específicos de cada pessoa, sem generalizações.

 

Por que falar sobre suicídio é, na prática, um ato de prevenção

Existe uma lógica por trás do silêncio: quanto mais o assunto é escondido, menos políticas públicas são criadas para lidar com ele. E quanto mais escondido o tema fica na sociedade, menos confortável se sente a pessoa que está com ideação suicida, ou planejando o próprio suicídio, para falar sobre o que está sentindo.

Esse ciclo se retroalimenta: o silêncio gera tabu, o tabu impede a conversa, e a falta de conversa dificulta tanto a prevenção quanto a busca por ajuda especializada.

Como destacou recentemente uma matéria sobre o tema, mais do que uma data no calendário, o dia 10 de setembro é um chamado para tratar a saúde mental com a atenção que ela merece, e isso vale também para os espaços de trabalho, onde sinais de sofrimento muitas vezes passam despercebidos ou são minimizados.

Falar sobre suicídio, quando feito de forma responsável e cuidadosa, não induz o comportamento, pelo contrário, abre espaço para o acolhimento. Perceber mudanças de comportamento, isolamento, falas de desesperança, e responder a isso com escuta genuína, sem julgamento, pode ser o primeiro passo para que alguém procure ajuda.

 

O papel de cada um de nós

Prevenção ao suicídio não é tarefa exclusiva de psicólogos e psiquiatras. Familiares, amigos, colegas de trabalho, educadores, líderes comunitários e profissionais de saúde de forma geral fazem parte dessa rede de cuidado. Perguntar com sinceridade “como você está?”, ouvir sem pressa e sem julgamento, e incentivar a busca por apoio profissional são gestos simples que podem fazer diferença real na vida de alguém.

E para quem está enfrentando esse sofrimento: pedir ajuda não é fraqueza, é coragem. Guardar tudo para si só reforça o peso que já é difícil de carregar sozinho.

 

Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188, pelo chat em cvv.org.br ou pelo e-mail. Em situações de urgência, procure o SAMU (192) ou o pronto-socorro mais próximo.

 

Referências bibliográficas

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). (2021).
  • Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). (2021a).
  • Ceret et al. (2019).
  • Aubin et al. (2013); Lengvenyte et al. (2021).
  • Bennett, S., Robb, K. A., Zortea, T. C., Dickson, A., Richardson, C., & O’Connor, R. C. (2023). Fatores de risco e recuperação de suicídio masculino: uma revisão sistemática e metassíntese qualitativa de duas décadas de pesquisa. Boletim Psicológico, 149(7-8), 371–417.
  • Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio 2022. Disponível em: paho.org
    SINTECT-SP. 10 de setembro: falar, ouvir e buscar ajuda também salvam vidas. Disponível em: sintect-sp.org.br

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