O segundo turno chegou e, para muita gente, parece que a eleição está em todos os lugares.
Está no celular que não para de vibrar, no grupo da família que ganhou discussões novas, nas conversas com amigos, no trabalho e até naquele almoço de domingo que antes era só um momento para estar junto.
Talvez você tenha percebido que está mais irritado, ansioso ou cansado. Talvez esteja dormindo pior, pensando demais nas notícias ou sentindo vontade de simplesmente desligar o celular por alguns dias. Se isso está acontecendo com você, saiba que não é frescura e nem falta de equilíbrio. Em um período de tanta informação, incerteza e conflito, é natural que nosso corpo e nossa mente reajam.
Mas isso não significa que precisamos passar por essa reta final no limite.
Neste texto, vamos conversar sobre como a polarização política pode afetar nossa saúde mental, o que as pesquisas têm mostrado sobre o assunto e, principalmente, o que podemos fazer para atravessar esse período com mais equilíbrio, sem precisar deixar de acompanhar o que está acontecendo ou abrir mão das nossas convicções.
Quando a política começa a pesar emocionalmente
Ter opiniões políticas diferentes faz parte de uma democracia. Pessoas podem enxergar o país de maneiras diferentes, defender propostas diferentes e discordar umas das outras. O problema aparece quando a divergência deixa de ser sobre ideias e passa a ser percebida como uma disputa entre “nós” e “eles”.
Quando uma posição política se torna muito ligada à nossa identidade, uma crítica ao candidato ou à ideia que defendemos pode começar a ser sentida como uma crítica a nós mesmos. E aí a conversa muda. Em vez de pensarmos “essa pessoa discorda de mim”, podemos começar a sentir “essa pessoa está contra mim”.
Nosso corpo também percebe essa diferença. Situações de conflito podem ativar respostas de alerta, deixando-nos mais tensos, irritados e preparados para nos defender.
O problema é quando esse estado de alerta se prolonga por muito tempo. Aos poucos, o que começou como uma discussão pontual pode aparecer no sono, na concentração, no humor e até na vontade de estar perto das pessoas.
O que as pesquisas dizem sobre isso?
A relação entre o ambiente político e o sofrimento emocional não é apenas uma impressão.
Um estudo publicado na revista Social Science & Medicine, realizado com adultos nos Estados Unidos, encontrou uma associação entre a percepção de aumento da polarização política e sintomas de ansiedade e depressão. Entre os participantes que percebiam maior polarização, houve um aumento relativo de 52% nas chances de apresentar sintomas depressivos e de 57% nas chances de apresentar sintomas de ansiedade.
É importante fazer uma ressalva: o estudo mostra uma associação, e não significa que a polarização política, sozinha, seja responsável por causar transtornos mentais.
Ainda assim, os resultados ajudam a mostrar algo importante: a maneira como vivenciamos o ambiente político pode ter impacto sobre o nosso bem-estar. E isso faz sentido quando olhamos para a nossa própria rotina.
No Brasil, por exemplo, um levantamento da Ipsos-Ipec realizado no final do ano passado identificou sentimentos negativos relacionados ao cenário político. Entre os entrevistados, 19% mencionaram tristeza, 17% cansaço e 16% medo.
São emoções que não ficam necessariamente restritas ao momento em que estamos assistindo ao noticiário. Elas podem acompanhar a gente durante o dia, aparecer nas conversas e influenciar a maneira como nos relacionamos.
E as redes sociais? Elas podem deixar tudo ainda mais intenso
Imagine passar o dia inteiro recebendo notícias, opiniões, vídeos, discussões, memes, críticas e comentários sobre um assunto que já desperta emoções fortes.
É mais ou menos isso que acontece quando passamos horas acompanhando o debate político nas redes.
Os conteúdos que despertam emoções intensas, como raiva e indignação, costumam chamar bastante atenção e gerar interação. Com isso, podemos acabar entrando em um ciclo: vemos algo que nos incomoda, respondemos, encontramos outra publicação ainda mais provocativa e, quando percebemos, estamos há uma hora consumindo conteúdo que nos deixa cada vez mais tensos.
Uma escuta digital divulgada pelo Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), em julho de 2024, mostrou a dimensão do problema: 81% dos participantes disseram já ter sido vítimas de discurso de ódio e, entre eles, 52% afirmaram ter passado por essa situação mais de cinco vezes.
Isso ajuda a entender por que, para algumas pessoas, abrir as redes sociais durante a reta final das eleições pode ser emocionalmente desgastante. E talvez a pergunta não precise ser “devo acompanhar ou não acompanhar?”.
Pode ser:
“Como eu posso me informar sem me machucar nesse processo?”
Quando a discussão sai da internet e chega em casa
Talvez essa seja uma das partes mais difíceis.
Porque é possível fechar o aplicativo. Mas nem sempre é possível, ou desejável, fechar a porta para as pessoas que pensam diferente de nós.
A divergência pode aparecer no almoço em família, em uma conversa com um amigo, em uma reunião de trabalho ou até em uma relação que sempre foi muito próxima. E quando existe afeto envolvido, a situação pode doer ainda mais.
Um comentário feito por alguém que amamos pode nos atingir de uma maneira completamente diferente daquele feito por um desconhecido na internet.
Por isso, vale prestar atenção em alguns sinais:
- você está ficando irritado com frequência ao ouvir opiniões diferentes;
- tem dificuldade para dormir porque fica pensando nas eleições ou nas discussões;
- sente vontade de evitar familiares, amigos ou colegas;
- verifica notícias e redes sociais várias vezes ao dia, mesmo quando percebe que isso está te fazendo mal;
- tem se sentido constantemente triste, cansado, assustado ou em estado de alerta;
- percebeu dificuldade maior para se concentrar no trabalho ou nos estudos.
Nenhum desses sinais significa, por si só, que existe um transtorno mental. Mas eles podem ser um convite para olhar para você e perguntar:
“Como tudo isso está me afetando?”
É possível ouvir sem concordar
Uma das ferramentas que pode fazer diferença nesse período é aprender a conversar sem transformar toda divergência em uma disputa.
Isso não significa abrir mão das suas opiniões ou fingir que tudo está bem. Significa conseguir escutar o outro sem necessariamente precisar concordar com ele.
Às vezes, uma pergunta simples como “o que te preocupa nessa situação?” pode levar a conversa para um lugar completamente diferente de um “você está errado”.
Porque, por trás de uma opinião política, existe uma pessoa. E essa pessoa tem histórias, experiências, medos, valores e expectativas que ajudam a explicar por que ela pensa daquela maneira. Nem toda conversa precisa terminar com alguém mudando de ideia. Às vezes, conseguir conversar sem transformar uma diferença de opinião em uma ruptura já é um ótimo resultado.
E também é importante lembrar: você pode estabelecer limites.
Se perceber que uma conversa deixou de ser uma troca e virou uma sequência de ataques, talvez seja hora de dizer:
“Prefiro não continuar essa conversa agora.”
Ou simplesmente:
“Vamos falar de outra coisa?”
Colocar um limite não significa fugir de uma discussão. Pode significar cuidar de uma relação e também de você.
5 atitudes que podem ajudar nesta reta final
1. Silencie aquilo que está te fazendo mal
Você não precisa bloquear pessoas, romper amizades ou sair de grupos para se proteger. As próprias redes sociais oferecem recursos para silenciar contas, palavras e conversas.
Se determinado conteúdo está te deixando constantemente irritado ou ansioso, talvez você possa diminuir o contato com ele por alguns dias. Manter uma relação com alguém não significa precisar acompanhar tudo o que essa pessoa publica.
2. Escolha quando você vai se informar
Existe uma diferença entre estar informado e estar conectado às notícias o tempo inteiro. Quando o celular vira uma fonte constante de atualizações, nosso cérebro dificilmente tem espaço para “desligar”.
Uma alternativa é escolher alguns momentos do dia para acompanhar as notícias e, depois, voltar para outras atividades. Você continua informado, mas não precisa carregar a eleição com você durante todas as horas do dia.
3. Escolha as conversas que realmente valem a pena
Nem toda discussão precisa acontecer.
Algumas conversas podem ser interessantes, provocar reflexão e até aproximar pessoas. Outras parecem existir apenas para provar quem está certo.
Pergunte a si mesmo:
“Essa conversa vai acrescentar alguma coisa ou só vai me deixar mais desgastado?”
Você não precisa gastar sua energia tentando convencer todo mundo.
4. Tenha cuidado com o que você consome
Correntes, manchetes alarmistas e conteúdos feitos para provocar uma reação imediata podem aumentar ainda mais a ansiedade. Sempre que possível, procure informações em fontes jornalísticas confiáveis e faça uma pausa antes de compartilhar algo que despertou uma emoção muito forte.
Às vezes, alguns minutos de distância são suficientes para perceber que aquilo que parecia urgente não precisava ser compartilhado naquele momento.
5. Continue vivendo a sua vida
Essa talvez seja a mais importante.
Continue caminhando. Cozinhe alguma coisa que você gosta. Ouça música. Veja uma série. Encontre quem te faz bem. Faça atividade física. Durma. Parece simples, mas esses momentos também são formas de cuidado.
Cuidar da saúde mental não significa ignorar o que está acontecendo no mundo. Significa lembrar que o mundo não pode ocupar todos os espaços dentro de você.
E, se perceber que o sofrimento está intenso, persistente ou começando a interferir significativamente na sua rotina, procurar ajuda profissional também pode ser importante.
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É uma forma de cuidado.
Informar-se, sim. Viver em função disso, não.
Participar da vida política é importante. Ter opiniões, defender aquilo em que você acredita e acompanhar o que acontece no país também. Mas talvez exista um meio-termo entre ignorar completamente as eleições e passar o dia inteiro imerso nelas.
Você pode se informar sem acompanhar cada atualização. Pode defender suas ideias sem transformar toda conversa em uma disputa. Pode discordar de alguém e continuar gostando dessa pessoa. E pode escolher não participar de uma discussão quando perceber que ela está fazendo mal para você.
O segundo turno vai passar.
O resultado vai sair. As discussões mais intensas vão diminuir. E, depois disso, ainda estarão ali as pessoas que fazem parte da sua vida, os vínculos que você construiu e a sua própria rotina.
Por isso, cuidar da sua saúde mental agora não significa se afastar da realidade.
Significa atravessar esse momento sem esquecer de cuidar de quem também vai estar aqui depois que ele passar: você.
E se você não precisasse atravessar tudo isso sozinho?
Ansiedade, medo do futuro, excesso de preocupação e dificuldade para lidar com tantas opiniões diferentes podem pesar mais do que percebemos. E você não precisa esperar que esse sofrimento se torne insuportável para buscar ajuda.
A terapia pode ser um espaço para entender melhor o que você está sentindo, organizar os pensamentos e encontrar formas mais saudáveis de lidar com as emoções que aparecem em momentos de incerteza e tensão.
Também pode ajudar no desenvolvimento de habilidades para lidar com situações de divergência sem se desgastar emocionalmente. O treino de habilidades sociais, por exemplo, trabalha aspectos como comunicação, assertividade, expressão de sentimentos e estabelecimento de limites, ferramentas que podem fazer diferença tanto nas relações familiares quanto nas amizades, no trabalho e em outras situações do dia a dia.
Afinal, cuidar da sua saúde mental também é aprender a dizer o que você pensa, ouvir o outro, reconhecer até onde consegue ir e saber quando é hora de colocar um limite.
Na Harmonie Instituto, contamos com profissionais especializados que podem te acompanhar nesse processo de forma individualizada, acolhedora e baseada em evidências.
Se você sente que este momento tem sido mais difícil do que gostaria, fale com a nossa equipe e encontre um profissional que possa fazer sentido para você.