Nos últimos quatro anos, os afastamentos por burnout no Brasil cresceram 823%. Os registros passaram de 823 casos em 2021 para 7.595 em 2025, segundo dados do Ministério da Previdência Social e do INSS. No ano passado, o país fechou com mais de 530 mil afastamentos por transtornos mentais no total, o maior número da série histórica, um impacto que tem sido estimado em cerca de R$ 400 bilhões por ano em produtividade, ausências e rotatividade.
Só no primeiro trimestre de 2026, foram 1.528 afastamentos por esgotamento, saltando de 418 casos em janeiro para 723 em março. Ou seja: o número não estabilizou, continua subindo.
São dados grandes, de gestão e de economia. Mas por trás de cada um deles existe uma pessoa que, em algum momento, sentiu que não conseguia mais sustentar sua rotina. E é sobre essa parte da história que vale a pena parar para entender.
O que é o burnout?
O burnout é o resultado de um estresse crônico relacionado ao trabalho que não foi administrado. Não é o mesmo que estar cansado depois de uma semana puxada, nem é uma fraqueza pessoal de quem “não aguenta a pressão”. É um processo de esgotamento físico e emocional que se instala aos poucos, quando a pessoa vive, por muito tempo, uma exigência maior do que os recursos que ela tem para lidar com ela.
Por que ele acontece?
O burnout raramente tem uma única causa. Ele costuma surgir do acúmulo de fatores como:
- Excesso de demandas sem pausa real. Rotinas em que o volume de trabalho aumenta, mas o tempo de recuperação não acompanha.
- Falta de controle sobre a própria rotina. Sentir que não há espaço para decidir como e quando o trabalho é feito.
- Ausência de reconhecimento. Um dado chama atenção nesse sentido: pesquisas recentes mostram que menos da metade das empresas brasileiras mantêm sessões regulares de feedback entre gestores e equipes, o que deixa muita gente sem espaço para sinalizar que algo não vai bem.
- Sobrecarga acumulada em várias frentes. No caso de muitas mulheres, isso significa dar conta do trabalho, da casa, dos filhos e dos relacionamentos ao mesmo tempo, sem que nenhuma dessas áreas realmente “descanse”.
- Cultura de estar sempre disponível. A ideia de que parar é sinônimo de fraqueza ou de falta de comprometimento.
Nenhum desses fatores, isoladamente, costuma causar o esgotamento. É a combinação e a permanência deles ao longo do tempo que desgastam a pessoa.
Muitas pessoas só percebem quando já chegaram ao limite (ou passaram dele)
Um dos pontos mais importantes sobre o burnout é que ele não aparece de um dia para o outro. Ele se instala de forma silenciosa, e isso tem uma explicação.
Primeiro, porque, no início, os sinais são discretos e fáceis de justificar: um cansaço maior, uma irritação pontual, uma noite de sono mais difícil. É comum atribuir isso a “uma fase corrida” e seguir em frente, sem associar aquilo a um processo de esgotamento em curso.
Segundo, porque muitas pessoas, principalmente aquelas com alto senso de responsabilidade, aprenderam a funcionar apesar do cansaço. Elas continuam entregando resultados, cumprindo prazos e cuidando de quem depende delas, mesmo enquanto vão se esgotando por dentro. De fora, tudo parece sob controle. Por dentro, a energia já está no limite.
Terceiro, existe ainda uma expectativa social de que “dar conta de tudo” é sinônimo de competência. Isso faz com que reconhecer o cansaço, ou pedir ajuda, seja vivido por muitas pessoas como uma espécie de fracasso pessoal, quando na verdade é o oposto: é um sinal de autocuidado.
É por essas razões que a busca por ajuda, na maioria das vezes, só acontece quando o corpo ou a mente já deram um sinal mais forte: uma crise de ansiedade, um esgotamento que já compromete o trabalho, um conflito recorrente em casa ou no ambiente profissional. Quando a pessoa sente que “não está mais conseguindo dar conta sozinha”.
Sinais iniciais que merecem atenção
Antes de chegar ao esgotamento completo, o corpo e a mente costumam dar avisos. Vale ficar atento quando você (ou alguém próximo) começa a notar:
- Cansaço que não melhora, mesmo depois de descansar;
- Irritabilidade mais frequente com pequenas coisas;
- Dificuldade de concentração ou de tomar decisões simples;
- Procrastinação em tarefas que antes não eram um problema;
- Queda de motivação com o trabalho ou com atividades que antes davam prazer;
- Sono mais leve, insônia ou a sensação de nunca estar totalmente descansado;
- Distanciamento de pessoas próximas ou de momentos de lazer.
Isoladamente, esses sinais podem significar várias coisas. Mas quando aparecem juntos e persistem por semanas, são um indicativo de que algo precisa de cuidado.
Sintomas do burnout
Quando o esgotamento já está instalado, os sintomas tendem a ficar mais intensos e a se manifestar em três dimensões principais:
- Exaustão emocional e física: cansaço extremo, sensação de estar “sem energia” mesmo para tarefas simples, dores de cabeça, tensão muscular e alterações no sono e no apetite.
- Distanciamento e cinismo: sensação de desconexão em relação ao trabalho, irritabilidade constante, insensibilidade ou frieza em relação a colegas, pacientes, clientes ou familiares.
- Sensação de ineficácia: percepção de que, por mais que se esforce, o trabalho não rende, acompanhada por autocrítica excessiva e queda na autoestima profissional.
Em muitos casos, esses sintomas vêm acompanhados de ansiedade, tristeza persistente e, em situações mais avançadas, sintomas físicos como palpitações, falta de ar e crises de choro sem uma causa clara.
O que fazer diante desses sinais
O burnout não se resolve apenas com descanso ou com um fim de semana livre. Quando os sinais começam a aparecer, o mais importante é não esperar chegar ao limite para buscar cuidado. Um acompanhamento psicológico ajuda a entender o que está por trás daquele esgotamento, a rever hábitos e limites que não estão mais sustentáveis, e a construir, aos poucos, uma relação mais equilibrada com o trabalho e com a própria rotina.
Na Harmonie, trabalhamos com terapia para adultos com base em evidências científicas, oferecendo um espaço de escuta e acolhimento para quem sente que a sobrecarga já está pesando demais. Também apoiamos empresas na adequação à NR-1, ajudando a identificar riscos psicossociais antes que eles se transformem em afastamentos.
Se você reconheceu alguns desses sinais em você ou em alguém próximo, talvez seja o momento de conversar com um profissional. Cuidar da saúde mental não é sobre esperar o esgotamento chegar ao limite, é sobre dar atenção a ela antes disso.
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Fontes: Ministério da Previdência Social, INSS, Estadão/Camila Farani (via IHU), Diário do Comércio, Sesame HR, Robert Half, Ateliê RH, Associação Nacional de Medicina do Trabalho.